Ética na Rede

O Blog reflete sobre o fazer jornalístico. Projeto de extensão da Unopar. São responsáveis as estudantes, Carolina Oldemburgo, Camila Papali, Jackelyne Brites, Karen Krinchev, Maíra Palmieri e Rafaella Abrão, sob a coordenação da profª: Sônia Lenira

Ética na Rede

O Blog reflete sobre o fazer jornalístico. Projeto de extensão da Unopar. São responsáveis as estudantes, Carolina Oldemburgo, Camila Papali, Jackelyne Brites, Karen Krinchev, Maíra Palmieri e Rafaella Abrão, sob a coordenação da profª: Sônia Lenira
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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2008

31.05.08

De que adianta sair na frente e ficar pra trás ?!?

Mesmo com debates éticos, discussões em meios acadêmicos, livros e mais livros sobre ética, blog, e muito mais, os erros persistem.

 A Globonews nessa última terça-feira (20) conseguiu dar um lindo furo de reportagem. Eles veicularam que um avião havia se chocado com um prédio vizinho do aeroporto de congonhas em São Paulo. Além de informarem o nome da empresa, fizeram várias imagens aéreas da fumaça e já começaram a achar o motivo da suposta queda ( vejam o vídeo http://www.youtube.com/watch?v=_V8hVOeVZGI). Após 5 minutos aparece a verdade, uma fábrica de colchões do bairro Moema, na Zona Sul da capital paulista, havia pegado fogo. 
 

Junto com a Globonews, entrou na dança também a Band news, Record News, emissoras de rádio, a UOL, o terra e o IG. Todos em busca da pauta recheada, que poderia render diversas matérias por um bom tempo, se isso realmente tivesse acontecido.

 E aí meus caros internautas, eu lhes pergunto, quem cuida da imprensa? Será que um dia haverá um endereço para as reclamações contra produtos jornalísticos com defeito?

Como diz no filme tropa de elite: “È a guerra da carne.” Uma competição serrada entre as emissoras, rádio, portais, para ver quem transmite a informação primeiro. O segundo artigo do Código de Ética do jornalista prevê que, a produção e a divulgação da informação deve se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público. Portanto, devemos recorrer aos sindicatos.

Suponhamos que isso tivesse acontecido com um médico, por falta de atenção ou qualquer outro motivo que justifique um erro médico. O Conselho Regional de Medicina (CRM) cassaria a carteira de autorização para exercer a profissão. Similar a um advogado que no caso a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entra em ação. 

Uma idéia sugestiva seria outros veículos que não caíram no mesmo buraco fazer, por exemplo, uma matéria ou até mesmo uma nota informando os cidadãos brasileiros do que aconteceu, pois muita gente ficou sem entender. É preciso alertar contra a desinformação da informação. O compromisso com os telespectadores, ouvintes, leitores deve ser reafirmado diariamente. Rapidez não quer dizer eficiência. Voltemos aos nossos primeiros dias de universidade, quando o professor nos fala: pessoal, lembrem sempre é preciso apurar os fatos. Confirmar mais de uma vez qualquer dúvida que tiverem. Será que alguém faltou neste dia?

 Por Maíra Palmieri

24.05.08

Usar ou não usar?

    Câmeras e gravadores ocultos, falsa identidade, revelação de off são questões diariamente pautadas nas discussões entre jornalistas, estudantes de jornalismo, e por membros da sociedade que são vítimas destes recursos. Usar ou não usar? 
    Segundo o professor de Ciências Sociais da Unopar, Wilson Sanches, os recursos de utilizarem câmeras ocultas e de mentir sobre a verdadeira identidade depende somente da intenção de quem está produzindo aquela matéria. “Se tem o intuito de desvendar um interesse público, creio que seja válido. A partir do momento que construí uma informação não comprovada começa a existir o problema de uso câmeras escondidas.” Para ele se a intenção do jornalista é se passar por outra pessoa e criar um fato por estar sem tema de pauta, entende- se que a conduta do profissional é reprovável. 
    O editor do caderno de política da Folha de Londrina, Claudemir Scalone, concorda com o Sanches, depende da situação e do fato ser apurado. “Acredito que o uso de gravadores ou câmeras auxiliem muito em matérias investigativas, principalmente, nas que envolvem corrupção na política no serviço público. A gravação é uma forma de comprovar essa corrupção. Dificilmente alguém envolvido em corrupção iria admitir que estaria lesando os cofres públicos ou fazendo negócios escusos.” 
    Para a pauteira da TV Tarobá e editora do caderno de cultura da Folha de Londrina, Fênix Firnarde, em algumas situações é necessário utilizar equipamentos ocultos para conseguir um flagra. “Existem situações que tem que ser flagradas mesmo. O direito da coletividade está acima do direito da imagem da pessoa. Eu usaria sem menor problema.” 
    A socióloga e professora da Universidade Norte do Paraná (UNOPAR) e da Universidade Estadual de Londrina(UEL), Adriana Ferreira explica que os jornalistas, como as demais profissões, estão sujeitas a prática do capitalismo. No caso do jornalismo, é indispensável que existam fatos que se tornam de interesses públicos, quanto mais intrigantes, sigilosos, curiosos melhor são para produzir uma reportagem. Sendo assim, o furo de reportagem é o que vai harmonizar o jornalista em relação ao veículo que trabalha. “Em outra palavra, são os furos que mantém e sustentam os meios de comunicação. E aí, vale (quase) tudo para consegui-los, desde a utilização de câmeras e gravadores ocultos, até a praticar de ocultar a verdadeira identidade ou se passar por outra para produzir uma reportagem”.

 
Uso do Off

    Quanto ao uso do off, Sanches acredita que nunca deve revelar a fonte, pois se o entrevistado só aceitou fazer a entrevista em condição de off estaria rompendo um acordo e colocando, em alguns casos, a vítima e risco. 
    Fênix revelaria o nome do entrevistado somente se a pessoa tivesse correndo perigo de vida. “A confiança que a fonte cria com o jornalista é uma das coisas mais difíceis de conseguir. Nós temos que batalhar para continuar preservando isso.” 
    Onde está o limite? Para a socióloga é a ética profissional que coloca os limites nas ações de todos os profissionais. ”Caso a ética não oriente as ações e atitudes a serem tomadas, a sociedade “implodiria”, por assim dizer, à medida que cada segmento profissional se sentiria completamente à vontade para fazer/afirmar/praticar o que quisesse, sem ter que se preocupar com as conseqüências de suas ações para o conjunto da sociedade” expõe. Hoje em dia, os indivíduos não estão preocupados com o coletivo, os interesses individuais têm prevalecido. A partir daí, os limites de qualquer profissão passam a ser questionados e perdem a força. 
    Adriana diz que existem duas realidades para o jornalista: a adequada e a real. A adequada, talvez não seja a ideal, é onde os interesses devem estar submetidos a um conjunto de regras que devem seguir; e na real é ação que os profissionais vêm tendo que se enquadrar no mundo capitalista, onde a ética não existe. ”Nessa “esquizofrenia social”, muitos profissionais não reconhecem limites, não agem segundo regras sociais, enfim, se perdem” argumenta a professora. 
    No entanto, a pauteira tem claro quando deve parar. “Meu limite tem que terminar quando começa o direito de outro. Seja ela uma vítima ou suspeito, seja ela quem for. Em qualquer matéria ou em furo de reportagem meu limite é esse, onde começa o direito da outra pessoa” ressalta.

* As entrevistas com o editor Claudemir Scalone e com a socióloga Adriana Ferreira foram feitas através de e-mail.

 

Por Ana Carolina Oldemburgo

17.05.08

A ÉTICA NOS VEÍCULOS COMUNITÀRIOS

    

     A comunicação comunitária é aquela que aparece como forma de garantir o direito de voz aos excluídos da mídia tradicional, já que todo cidadão “tem o direito ele próprio de informar, opinar, expressar suas experiências e visões, manifestar o controverso, a diversidade, a pluralidade” (RICCORDI, 2000). Os veículos (jornais, rádios e TVs) têm o conteúdo editorial todo formulado em função da comunidade, e isso acontece porque os membros desta estão diretamente envolvidos na elaboração do conteúdo.

     Para saber mais sobre o assunto a equipe Ética na Rede entrevistou o jornalista e professor universitário da Unopar, Reinaldo Zanardi. Ele é coordenador do projeto Gente Comum, que tem como objetivo sensibilizar os futuros profissionais para ter um olhar diferente em relação à comunidade.O Gente Comum é integrado à disciplina de Produção em Comunicação Comunitária, e por isso todos os alunos têm esse contato com a comunidade ainda na Universidade. O jornalista cita que em seis anos de produção foram desenvolvidos cerca de 70 subprojetos em Londrina e região, e vários tiveram destaque. “Em 2006, dois projetos de 2005 foram premiados no Sangue Novo no Jornalismo Paranaense, na categoria Projeto em Radiojornalismo, oferecido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Curitiba” , conta.

     Mas como meio de comunicação, os veículos comunitários, devem seguir o Código de Ética dos Jornalistas à risca, assim como os demais, certo? Nem sempre. Zanardi acredita que se seguir o código de ética for sinônimo de ouvir os dois lados ou versões de um fato os veículos comunitários não devem segui-lo à risca. Ele entende que os veículos comunitários, controlados por determinados movimentos populares, defendem claramente os interesses do mesmo, e por isso não são desonestos quando não procuram o “outro lado” de uma notícia. “Eles são claros no posicionamento e opinam de forma crítica, ao contrário de alguns veículos comerciais que dizem ouvir todas as versões, quando não o fazem”, expõe.

     Os veículos comerciais também podem apresentar propostas comunitárias, mas elas acabam tendo abrangência menor, já que, segundo Zanardi, os interesses do veículo acabam editando até onde a pauta vai ou não. A comunidade não participa ativamente, não escolhe o que vai ser notícia. Já nos veículos comunitários acontece o oposto, como define a pesquisadora Cecília Peruzzo ao explicar que a comunicação popular contribui para a democratização da sociedade e conquista da cidadania. Zanardi explica nos veículos comunitários o jornalista é um instrumento, a comunidade escolhe e interfere diretamente no que é notícia.

     Zanardi considera que os veículos comunitários podem realizar campanhas para arrecadação de fundos, desde que esses recursos sejam utilizados totalmente em benefício da própria comunidade – pagamento de despesas (água, luz), melhorias nos equipamentos do veículo, entre outras coisas. “O que não pode acontecer é o interesse individual se sobrepor à coletividade”, reafirma.

     Os veículos comunitários representam uma conquista muito expressiva para os segmentos que deles se servem. A comunicação popular traz benefícios reais para a população envolvida que nela tem como ‘proteger-se’ da mídia. O problema é que, como ressalta o professor Zanardi, "a comunidade desconhece o poder que ela pode ter com um veículo de comunicação nas mãos, e os veículos comerciais que conhecem tal poder não querem que a população o descubra".

Por Jackelyne Brites

 

 BIBLIOGRAFIA:

PERUZZO, Cecília. “Comunicação popular”.Comunicação nos movimentos populares. São Paulo. Editora Vozes: 2ª edição.

RICCORDI, Paulo de Tarso. Poder público e comunicação comunitária. São Paulo: 2000. Disponível em http://www.obore.com/egi-local/artigos.pl?mostrar&artigo_1. Acesso em 16 de junho de 2002.

02.05.08

Sob o ponto de vista de um filósofo ...

O professor do curso de Filosofia da UEL, Aguinaldo Pavão, concedeu entrevista, por e-mail, ao blog Ética na Rede. Ele é mestre em Filosofia pela UFRGS, onde produziu a dissertação com o tema "Liberdade e Moralidade em Kant". É também doutor em Filosofia pela Unicamp, sendo autor da tese “O mal moral em Kant".

Um pouco do pensamento do professor pode ser lido em:
http://agguinaldopavao.blogspot.com

Qual o papel da mídia na construção da verdade?

Não sei. Não penso que a verdade seja construída. Acho que a verdade significa apenas a correspondência entre o que afirmamos e a realidade. Nós não a construímos. Nossa linguagem procura afirmá-la e a nossa inteligência procura descobri-la. Por isso, o papel da mídia com respeito à verdade é de procurá-la, e talvez cultuá-la. Nesse sentido, os jornalistas deveriam procurar menos a confirmação de suas opiniões e trazer mais a verdade, a qual, por ventura, pode confrontar-se com suas crenças e ideologias. Evidentemente, também é preciso espaço, para que o próprio jornalista emita sua opinião, como qualquer pessoa que trata seja de que assunto for. 

Existe consciência ética na imprensa?

Todos os seres humanos têm consciência ética. Logo, reconhecendo que a atividade da imprensa é feita por seres humanos, parece-me evidente que a resposta deve ser afirmativa. Mas isso não significa, como não pode significar para as demais ações e atividades humanas, que as pessoas por terem consciência ética agirão de acordo com essa consciência. Como seres humanos, somos moralmente imperfeitos. Essa é uma verdade trivial. 

Como o senhor analisa a questão do jornalismo buscar constantemente a verdade?

Concordo que o jornalismo deve buscar constantemente a verdade; mas acho isso pacífico. 

Sob o ponto de vista de algum filósofo, como o senhor descreveria a questão da mídia exibir em alguns casos uma realidade fragmentada e maquiada?

Os filósofos que estudo, como Aristóteles, Hobbes e Kant, não puderam se pronunciar diretamente acerca da mídia, por terem chegado ao mundo antes dela. Mas não vejo nenhum problema na exibição de realidade fragmentada e maquiada. Fragmentada a realidade sempre será. O que seria uma realidade não fragmentária? Certamente um conceito metafísico e dogmático. Maquiada também não vejo problemas, pois é uma forma de vender mais jornais, ter mais anunciantes e agradar ao gosto médio dos consumidores de informação. É assim que caminha a humanidade. Temos de reconhecer que um proprietário de meio de comunicação é um indivíduo que visa ao lucro e não há nada de errado em buscar o lucro. Ao contrário, como apregoava Mandeville vícios privados geram benefícios públicos. São motivações, em geral, egoístas que geram empregos e produzem riqueza. Para que o negócio televisão, rádio, jornal prospere, é preciso audiência (e leitores no caso do jornal). Sendo assim, parece-me natural que índices de audiências e pesquisas qualitativas pautem as programações e o noticiário em geral. Os veículos de comunicação precisam de mercado e da ampliação deles. 

O que falta no jornalismo da atualidade, enquanto “dever”?

Parece que falta ao jornalismo, e talvez sempre faltará, profundidade. 

Até que ponto o leitor deve questionar o que é verdade, já que as notícias são tratadas como espetáculo muitas vezes?

O leitor deve questionar tudo, sempre. Ele é o maior responsável por assumir como verdade o que é apenas versão, ou assumir como informação o que é apenas espetáculo. 

Os fins justificam os meios, quando se trata da apuração dos fatos?

A tese de que os fins justificam os meios traz consigo a idéia de que não existe ação que, por si só, possa ser considerada moralmente reprovável. Ora, em geral as pessoas concordam que, por exemplo, usar um ser humano simplesmente como um meio é imoral. Parece-me que estão certas. Sendo assim, é claro que os fins não justificam os meios. E não importa se trata de apurar os fatos ou apenas buscar o prazer. 

É possível aplicar os preceitos filosóficos no jornalismo?

Não acredito que existam autênticos preceitos filosóficos. A filosofia apenas procura esclarecer alguns conceitos relativos à existência humana. Portanto, penso que é impossível aplicar os preceitos filosóficos, pela simples razão de que não acredito em preceitos filosóficos.

Por Karen Krinchev