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Em entrevista produzida para a disciplina Ética Jornalística I, no primeiro semestre deste ano, pelos alunos da Universidade Norte do Paraná (UNOPAR) Jaqueline Gibim, Mayara Cunha, Vitor Hugo e editada por Maíra Palmieri. Teve a presença do o ex-professor e atual editor-chefe da TV Sinal em Curitiba, Edenilson de Almeida.
Almeida formou-se em Comunicação Social pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), em 1992. Fez pós-graduação em Administração de Marketing e Propaganda pela mesma Universidade, em 1996. Após cinco anos defendeu o Mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), com a dissertação “A notícia nacional – como o Jornal Nacional decide o que é notícia”. Ele já trabalhou para a Folha de Londrina, TV Cidade afiliada do SBT em Londrina, Jornal de Londrina (JL), TV Coroados (Londrina), TV Paranaense (Curitiba), TV MIX onde foi produtor/apresentador do Mix Cidadania, produtor e editor do Factual e Viva Bem, colaborador da Editora Abril, produzindo reportagens para as revistas Viva Mais, Cláudia e Viagem e Turismo, outros trabalhos que já exerceu. Atuou também como Assessor de Imprensa nas diversas oportunidades, destacando os trabalhos feitos para a Saúde 99 Feira Internacional da Saúde, Filo 2002,Catuaí Collection 2003, Metamorfose 2006, Metronorte. A partir de 1999 começou a carreira acadêmica, ministrando aulas na Fundação Municipal de Assis (FEMA), estado de S. Paulo, Universidade Norte do Paraná – Unopar e Metropolitana (ambas em Londrina), Uniandrade e Universidade Tuiuti do Paraná (ambas em Curitiba). As disciplinas dadas por Almeida sempre foram Técnica de Reportagem, entrevista e pesquisa jornalística, história do jornalismo e telejornalismo.
A entrevista feita pelos alunos discute o tema da Importância da Escola de Jornalismo na formação da ética profissional.
1 - Como você definiria ÈTICA?
Eu vejo a ética como um princípio de conduta que permeia as relações humanas, principalmente naquilo em que não exista uma regulamentação formal estabelecida. Um exemplo bem simples, talvez até vulgar, é não fazer com os outros nada que não gosto que façam comigo. No campo do jornalismo, aceitar convites para shows, cinema, "rega bofes", presentes de empresários, políticos é agir com falta de ética. Não é só isso. Talvez seja o exemplo mais fácil e próximo. Aliás, muitos estudantes de jornalismo já me disseram que entraram no curso para irem aos estádios sem pagar. Se vocês quiserem um sinônimo bem corriqueiro, acho que ética tem a ver com "vergonha na cara". Certamente no campo teórico, vocês já encontraram outras definições. Mas vergonha na cara acho, neste momento, o que melhor defina a ética.
2- Você acha que se o estágio fosse regulamentado, os alunos conseguiriam ter uma visão mais ampla de como exercer um trabalho ético? Por quê?
Não vejo relação entre as duas situações. Se o estudante não tem ética na vida, na universidade, se ele copia matéria da internet e tenta enrolar o professor, se não cumpre os prazos estabelecidos, se não aprendeu com os pais a respeitar o outro, terá muitas dificuldades em se relacionar com as pessoas. E isso independe de lugar. Um estudante que desrespeita a Lei Seca, por exemplo, não precisa ir para a redação de um jornal, estagiar na assessoria de imprensa da Polícia ou de um hospital, para aprender que não pode beber e dirigir. Vocês, estudantes da Unopar, não vão ter ética porque tiveram aulas sobre o tema. As aulas trarão a reflexão, nunca a atitude. Da mesma forma, estagiar não fará de nenhum aluno mais ou menos ético. Por mais paradoxal que possa parecer, ética não se aprende. Ou se tem, ou não se tem.
3 - Um trabalho feito com ética, quais principais requisitos para exercê-lo?
Dentro do jornalismo, técnica e teoricamente, parece bem simples: apurar as informações, levantar os dados, não distorcer falas e opiniões, não tirar do contexto, ouvir todas as partes envolvidas, não emitir opinião, não dar o "carteiraço", tratar as pessoas com respeito independentemente do cargo e poder que elas tenham. Parece simples. Mas viver isso é um grande desafio diário. Acho que foi o Cláudio Abramo que disse que o jornalismo é o exercício cotidiano do caráter. Eu concordo totalmente com ele. Estabelecer uma relação de confiança com a fonte e não decepcioná-la, saber ouvir é talvez sejam os primeiros passos para uma longa caminhada que não se esgota nunca.
4 - Como cobrar uma postura ética?
Acho que a melhor forma é pelo exemplo. Só se pode cobrar uma postura ética, sendo ético. Nas relações de autoridade, o exemplo é a melhor pedagogia. Eu parto do princípio que não posso cobrar do outro algo que nem eu faço. Como editor-chefe da TV Sinal, além de primar pelo bom texto, pela correção das informações, com o respeito às fontes e ao público, a minha própria postura precisa demonstrar isso para toda a equipe. Do contrário, não se consegue absolutamente nenhum resultado.
5 - De todos os empregos que atuou, já teve algum episódio que você considerou uma postura antiética?
Na minha modesta avaliação, creio que eu, diretamente, nunca tenha sido anti-ético. O que não significa que os veículos não tenham sido. Vou citar apenas um exemplo que me envolvia diretamente: quando eu tinha a coluna sobre televisão no Jornal de Londrina, eu publicava as opiniões dos leitores – mesmo quando eles discordavam de maneira desrespeitosa. E jamais retruquei uma crítica, porque no final das contas, a última palavra sempre seria minha. Se eu tenho o direito de publicar minha opinião, o leitor tem o mesmo direito de discordar e devo publicar a opinião dele.
6 - E uma postura ética, da qual você admirou?
Não foi de um veículo de comunicação diretamente, mas da polícia. Londrina teve um delegado chefe que proibiu as emissoras de rádio e televisão de entrevistarem os suspeitos de crimes. Toda a imprensa chiou, mas eu fiquei fã do delegado por uma razão simples: só bandido pobre e negro vai para aqueles "paredões" que fazem a "festa" dos programas policiais. "Bandido" graúdo negocia rendição porque tem direito à própria imagem. O delegado estendeu essa prerrogativa a todos, preservando os pobres e negros. Jornalista também deve respeitar a lei e tratar a todos com igualdade.
7 - Discute-se muito sobre a criação de dois códigos de ética; um para os assessores de imprensa e outro para os ‘jornalistas’. Você defende a criação de códigos distintos?
Coloco uma reflexão: para fazer assessoria de imprensa, o cidadão precisa ser jornalista. Jornalista é o profissional que apura as informações, depura-as e repassas ao público . Se o assessor de imprensa tiver isso em mente, preocupar-se em transformar o assessorado em notícia – correta e sem distorções – para o público e não para o empresário, ele não precisa de um código diferente. Mas se isso não for possível, o mais recomendável é que tenha outra regulamentação. O que nós não podemos achar é que assessor de imprensa faz marketing da empresa. O assessor é a interface entre a empresa e a imprensa, sempre levando em consideração o que é notícia. Se o profissional não consegue diferenciar os papéis, então é melhor responder a um código diferente.
Por Maíra Palmieri
criado por Ética na Rede
20:32:01