Ética na Rede

O Blog reflete sobre o fazer jornalístico. Projeto de extensão da Unopar. São responsáveis as estudantes, Carolina Oldemburgo, Camila Papali, Jackelyne Brites, Karen Krinchev, Maíra Palmieri e Rafaella Abrão, sob a coordenação da profª: Sônia Lenira

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Terra Blog

27.08.08

Sociólogo aborda "possibilidades anti-éticas"

Em entrevista aos alunos Elaine Damasceno, Roberto Ortega, Andréia Reis e Alexandre França, para a disciplina de Ética Jornalística II, o sociólogo e professor da Universidade Norte do Paraná (Unopar), Wilson Sanches expõe a sua visão sobre os embates éticos na imprensa atual e as  conseqüências na sociedade . Editado por Camila Papali.
 
O sociólogo faz parte do corpo docente da Unopar e leciona disciplinas que envolvem “comunicação e sociedade”. 


1. A jornalista Elaine Tavares afirma que o fato jornalístico não surge do nada, que tem uma causa, você acredita que a grande mídia observa ou procura saber a causa da notícia que expõe com ética? 

Primeiramente precisamos saber o verdadeiro papel da imprensa nos dias atuais e o que sempre foi dito que seria papel da imprensa, que é mostrar o que está acontecendo. O que acontece na verdade é a procura, a busca do termo “furo”. O “furo” demonstra que há uma procura por parte da imprensa pela notícia e informação. Nesse sentido, talvez seja uma procura ética quando você busca conhecer as fontes, analisar os vários lados da história. O fato em si, não necessariamente é um fato que se auto-explica, ele precisa de vários outros elementos para explicá-lo, e a explicação desses elementos pode mudar a visão das pessoas sobre o acontecimento. Então dentro de uma perspectiva de coerência do jornalismo, o “pesquisar o assunto”, o “ir atrás” é extremamente fundamental e benéfico.
 
2. Qual é o caminho alternativo para barrar o sensacionalismo e democratizar o acesso à informação?
 
Democratizar o acesso à informação é complicado porque nós ainda estamos em um tempo que as mídias têm seus proprietários e, portanto, o acesso é restrito. Publica-se aquilo que os proprietários querem que se publique. Eu acredito que com a internet temos sim um princípio de democratização, pois é um meio que eficazmente tem ida e volta, ou seja, é um duplo caminho que a pessoa não é apenas um consumidor passivo de notícia, mas também pode se reproduzir, pode falar aquilo que quer. Então a internet é uma via importante dentro da democratização do sistema de comunicação como um todo. Em relação ao sensacionalismo fica complicado, porque como a mídia comercial vive da exposição, da venda do seu tempo, da venda do espaço, ela precisa de coisas que chamem a atenção do seu publico para si. E nisso ele acaba explorando certos assuntos de forma sensacionalista a fim de atrair essa mídia, afinal vivemos em um sistema em que o lucro impera e essas empresas não são empresas filantrópicas, elas tem que visar manutenção e lucro. Eu não sei se minimizaria o sensacionalismo uma conscientização do público por uma busca menor de sensacionalismo. Há sensacionalismo de algumas matérias que ao invés de atrair a atenção, causa certo repúdio, e aí é deixada de lado. Pois sempre que há repúdio do público, ou seja, do leitor, do ouvinte, do telespectador em relação isso, a mídia faz uma auto-crítica e troca de assunto. Ela vê que expôs demais. 
 
3. Falando do modelo on-line de jornalismo, segundo Alberto Dines, a sociedade está acatando o modelo on-line para se manter informada, dando mais credibilidade à sites do que à jornais impressosi. Você acha que os benefícios das novas tecnologias podem trazer um formato de modelo democrático de acesso à informação?
 
Ele pode ser um modelo democrático, não sei se no Brasil se configura dessa forma, tendo em vista que uma parcela minoritária tem acesso de fato à internet e a outras mídias. E quando eu falo acesso de fato quero dizer em ter habilidade suficiente para você manusear o instrumento, não simplesmente um site de busca ou um lugar para pesquisar um trabalho escolar, mas sim um lugar onde você tenha domínio do ambiente. Então se você coloca no aspecto domínio do ambiente o número de pessoas que terá acesso será mais restrito ainda. A possibilidade está ai. Só que o questionamento que se cria se essa total liberdade ou quase total liberdade que se tem na internet não gera também um problema ético. Afinal, não se tem compromisso com aquilo que está escrito. Muitos blogs e sites não têm uma vinculação direta entre a pessoa que escreveu e com o que está escrito. O autor é virtual, ele pode escrever qualquer coisa sem danos a si próprio. O que não acontece na mídia impressa, pois nesse modelo de mídia é vinculado o que está escrito a quem escreveu. O site que faz essa ligação goza de credibilidade.
 
 
4. O capitalismo é visto como o grande culpado pela falta de ética nos veículos. Você acredita que outro sistema político resolveria esse problema?
 
Eu acho que o capitalismo produz um determinado tipo de falta de ética por assim dizer, mas se analisarmos a história como um todo, podemos observar uma história incessante de homens que lutam pela ética. O elemento anti-ético está sempre presente, independente do sistema. É um problema de relacionamento entre os homens. Eu acho que o capitalismo tem a sua forma, ou seja, a forma do lucro, a forma de transformar tudo em mercadoria, tudo é feito para o mercado, então se o mercado rejeita, eu mudo o formato para o mercado aceitar. Agora, se você pega o comunismo real como teve, por exemplo, a União Soviética, você tem a censura por parte do estado porque não permite que certas coisas sejam publicadas, ou seja, só se publica o que é a favor do estado, se publica o que o estado quer. Então também é uma forma de não agir ético. E os jornalistas que estão nesses países ditatoriais têm sua maneira de burlar as leis e burlar a própria ética, ou seja, eu quero que meu texto seja publicado então não vou falar mal do governo. Diferentes formatos geram diferentes formas de não cumprir a ética. O que tem que se pensar, é que sempre há uma discussão em torno do que é a ética, essa relação entre os seres humanos, o que norteia as relações entre os homens, e cada tempo ele vai precisar de um formato novo de ética, de um pensamento novo sobre as possibilidades éticas, pois as possibilidades anti-éticas estão postas pelo próprio sistema. 
  
  
5. A imprensa sensacionalista assume liderança de público principalmente no formato televisivo, o qual gera tanto sucesso. Você acredita que a imagem é comprada ou é realmente aquilo que as pessoas querem ver?
 
Tem duas coisas. Primeiro, o formato televisivo é extremamente atraente em um país que há um grande número de não leitores. A televisão é atraente, porque tem uma linguagem, fala e imagem. Não necessita ler. O caso sensacionalismo de programas que vão atrás de notícias de cunho policial, faz voltar na questão de que o povo sente que alguém está fazendo justiça por ele. Que alguém está indo atrás, que não está sendo encoberto, que está sendo posto e que está sendo revelado a todos. Não sei se também por parte de quem faz isso também não há esse tipo de sentimento, porque uma coisa é você falar do que é o problema, a outra é você mostrar o que move as pessoas a fazerem isso. É lógico que o canal televisivo que propõe isso não vai manter isso no ar se não tiver audiência, porque precisa de audiência para manter suas propagandas, para manter o seu ganho, pois é um custo alto.E quem produz isso, talvez também seja motivado a fazer justiça. As pessoas assistem por se identificarem com todo o acontecido e ver que alguém intercede por ele em instâncias maiores. 
 
Por Camila Papali

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